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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mais do mesmo, de um outro lado...



Depois de uma acalorada (e calorosa) discussão com meu querido e saudoso professor Flavio Martins e Nascimento - o Flavinho, admirador das artes, da gastronomia, de uma boa prosa e de um bom vinho – resolvi escrever um pouco mais sobre os desdobramentos daquela história que começou com um rolezinho com pretensões despretensiosamente filosóficas sobre os rolezinhos, e que foi parar em outro lugar, agora sim, um pouco mais filosófico e pretensiosamente mais profundo. Bom, tudo isso pra dizer que resolvi então escrever um pouco mais do mesmo, de um outro ângulo, indo mais fundo, usando alguns trechos dessa discussão.

Estamos vivendo um momento histórico, onde movimentos despretensiosos (eita, palavrinha que insiste em aparecer!) tomam grandes proporções e agregam novos atores, autores, opiniões, teorias... um exemplo já clássico (quase um clichê) são as manifestações de junho do ano passado. O mundo está mudando rapidamente, talvez a resposta esteja nos astros, no apocalipse, ou talvez nem exista resposta. Mas a verdade é que estamos vivenciando momentos muito importantes da história com H maiúsculo. E, como estamos no meio do furacão, fica difícil teorizar muito, afirmar que “x” e que não “y”.


Bom, mas, voltando à origem da conversa, o que na verdade me inquieta não é o fato de acontecerem os rolezinhos. Esses encontros banais de adolescentes, como tantos outros por aí, e que ganharam tantos adeptos quanto holofotes nos últimos tempos, são apenas um ponto dessa história toda. Diferentes, sim, por trazerem à tona toda uma questão social, racial, econômica, estrutural. Iguais também, por não serem nem o primeiro nem o último encontro de tribos que gera barulho, teorias e especulações. Não acho que os “rolezeiros” sejam baderneiros (a palavra da moda), muito menos ideologistas da transformação e da luta contra a segregação. A ideologia dos rolezeiros, e enfim, é isso que me inquieta, me parece ser a do consumo, da aparência, da ostentação material, da superficialidade que parece não ir muito além do que mostra um perfil de facebook, ou do badalado whatsapp. A falta de um conteúdo que vá além da necessidade de comprar e exibir um nike shox (de favelados a playboys), é o que me causa certo incômodo e me faz duvidar um pouco desse movimento de transformação nos paradigmas sociais.

Enquanto muitos estão buscando seu lugar ao sol, lutando por espaço e reconhecimento através da arte e outras formas mais originais de expressão, nas mesmas ruas por onde transitam os rolezeiros, outros ainda tentam pobremente (sem trocadilhos) imitar os “segregadores” e "exploradores" (bem toscamente falando). Essa massa, que vê no consumo e ostentação (de bens importados, de preferência), no “ver e ser visto”, os maiores objetivos de sua existência. Pra mim, essa é a parte triste da história e que me parece refletir uma certa pobreza cultural, social, educacional, moral. Sem generalizações. Sem rótulos e teorias definitivas.

Mas, deixando as lamentações de lado e citando algumas palavras do Flavinho, “nesses eventos coletivos, a maioria das pessoas age como manada, onde ninguém sabe exatamente o que está fazendo ou querendo. O que por um lado é triste, segue sendo a lógica evolutiva do homem. Nós, seres humanos, convivemos em estágios muito diferentes. Penso que o caminho para a transformação que esperamos e queremos é cada vez mais pessoal, e por isso mesmo, muito lento, seletivo, gradual”.

Essa é a parte mais profunda e otimista da história.

Vai ver é exatamente aí que “a mágica acontece”. Vai ver, existe uma lógica em tudo isso que a nossa razão e a vã filosofia desconhecem.Vai ver, vamos ver. Ou não...



Obs.: Flavinho, valeu pela prosa e desculpe-me se plagiei algumas de suas falas sem os devidos créditos. Fica um ensaio para aquela ideia de escrevermos um texto a quatro mãos.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Um rolezinho pela mediocridade cultural



Divagando sobre o recente episódio dos rolezinhos nos shoppings paulistanos e lendo diferentes pontos de vista sobre o assunto, comecei a pensar que os rolezinhos refletem muito mais do que a cultura da exclusão e do preconceito. Eles refletem a mediocridade cultural da sociedade brasileira. De um lado, educa-se as pessoas para a exclusão dos semelhantes “inferiores” e para o poder do consumo como “diferenciador social”. De outro, incentiva-se o consumo excessivo e a ostentação, mesmo que você não tenha dinheiro, mesmo que sua família more na favela, mesmo que seus pais tenham que se sacrificar noite e dia, trabalhando e fazendo uns extras, pra que você esteja aceitável e desejável nos rolês com os "parça" e com as "mina". Sem criticar ou defender qualquer bandeira, acho que isso está de certa forma ligado ao momento da economia brasileira e à forma com que essa aceleração foi tratada de maneira geral. Todos agora podem consumir, ter roupas caras, tevês fininhas e espertas, carros populares, parcelar em infinitas vezes no boleto ou no cartão. Os jovens da favela que poderiam estar buscando novas oportunidades nesse novo cenário, pensando em seus estudos e em formas de ter condições de vida melhores que as atuais e que a de seus pais, estão gastando o pouco que tem - e até o que não tem - em roupas, tênis e bonés de grandes marcas do mundo fashion. Se não for importado, tá out!  É claro que não podemos generalizar. Muitos jovens da mesma favela, e das mesmas famílias desses jovens rolezeiros devem estar nesse momento tentando uma vaga em algum processo seletivo nas universidades do Brasil, já que, com as ações afirmativas e outras ações de democratização do estudo universitário, as oportunidades aumentaram e nem todos querem viver eternamente de rolezinhos e bailes funk “ostentação”. Bom, mas a verdade é que o Brasil deveria ver nesse episódio atual a doença da nossa sociedade, supervalorizando padrões de consumo e de imagem, fazendo com que as pessoas busquem mostrar um status social, como se isso fosse o mais importante, em detrimento de outros valores, mais duradouros, que durem pelo menos até a próxima estação. Sem querer ser moralista, mas, onde estão os valores da nossa sociedade? No consumo? Em transmitir uma imagem dentro dos padrões globais? No corpo perfeito, no look do momento? Acho que a resposta está clara nos rolezinhos, nas novelas, no “grande irmão” que insiste em chegar a sua décima quarta edição, exibindo e exaltando a mediocridade cultural em que nosso país se encontra.

AvulsaMente - algo dito fora de contexto aparente

Há tempos venho pensando em criar esse blog. Já tinha o nome, a ideia, alguns textos avulsos escritos, a vontade. Só me faltava... na verdade não sei o que faltava. A iniciativa, talvez. Ou a coragem de expor na rede meus pensamentos e devaneios, tão avulsos... Aliás, essa palavra me remete a brincadeiras bobas do início da faculdade, lá pelos "idos" e "vindos" do ano de 2006 nas montanhas sulfurosas de Poços de Caldas. Segundo o nosso dicionário particular da época: "Avulsidades são coisas ditas fora de contexto, sem nexo, sem razão aparente e geralmente provocam críticas, estranhamento, identificação e/ou gargalhadas". (Desconfio que ser avulso está muito além disso, só nos resta descobrir quanto e onde). Acho que minha mente sempre foi assim, avulsa. A conversa tá ali e minha mente tá lá, nem sei onde, nem quando, em algum lugar bem avulso, divagando sobre os cinquenta tons de azul do céu. Agora, vamos combinar, quem não é ou nunca foi avulso pelo menos umas quinhentas vezes na vida? Acho que de avulso e louco, todo mundo tem um pouco. Esse blog é dedicado às mentes avulsas desse mundo e, por que não, dos outros mundos também!