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quinta-feira, 8 de maio de 2014

"Discutindo" política na cadeira do dentista



Dentistas são muito diferentes entre si, em competência, precisão, simpatia, antipatia etecetera e tal. Mas uma coisa todos (pelo menos os que conheci até hoje) têm em comum: querer conversar com o paciente quando o pobre coitado está com a boca cheia daqueles apetrechos, moldes, massinhas, aparelhinhos barulhentos, sugadores, as mãos do próprio dentista e por aí vai. Só se consegue balançar a cabeça, e olhe lá!

Imagem: Internet

Bom, um dia desses, estava eu sentada na temível cadeira do dentista, exatamente nessa situação dos pesadelos de qualquer criança, quando o dentista começa a prosear: “nossa, tá todo mundo de saco cheio desse PT, né? tanta corrupção, mensalão, escândalo da Petrobrás... você não acha? todo mundo que a gente conversa fala que não aguenta mais, que tem nojo do PT, do Lula, da Dilma... pelo menos as pessoas da NOSSA CLASSE, né? Nós fomos os maiores prejudicados por esse governo. Pro povão até que foi bom, esse é o perigo. To pensando em conversar com o porteiro do prédio, pra sentir o que as pessoas mais humildes acham. Porque pra eles o PT foi bom, né! Cada um olha seu lado, é natural... “ E a conversa (de apenas um interlocutor) continuou nesse sentido enquanto eu tentava balbuciar alguma resposta, sem sucesso. Por fim, ele parou seu discurso pra ouvir o que um colega de trabalho falava com algum cliente no corredor. Mesmo assunto. Ele deu uma risadinha e continuou “tá vendo, to falando!”.
Enquanto ele falava eu tentava formular uma resposta pra quando os apetrechos que me calavam fossem retirados e então eu tivesse voz. Mas a coisa demorou tanto, que desisti. Percebi que não valeria a pena continuar ali, nem naquela “conversa”. Me despedi do dentista e vim pra casa pensando na minha resposta que ficou engasgada.
Pra começar, vale dizer que não tenho simpatia pela presidente Dilma, nem a mínima intenção de defendê-la ou levantar qualquer bandeira.  Não sou petista, nem sou uma profunda entendedora de política. Mas tenho cérebro, observo a realidade à minha volta, vejo alguns noticiários. E o que percebo é que está sendo plantada e disseminada uma semente de ódio, de asco da política brasileira, algo que talvez tenha ganhado mais força com as manifestações de junho do ano passado. E todo esse ódio, talvez pra simplificar, ou por conveniência para muitos, está sendo direcionado à figura da presidente Dilma e do PT.
Pelo que sei, a corrupção no Brasil é tão antiga quanto à colonização, praticamente. Mas não precisamos cavar tão fundo a História. Os tucanos, que governaram o país recentemente durante oito anos, e que governam Minas Gerais há um bocado de tempo, e que também estão em outros estados e prefeituras importantes do nosso país, também protagonizaram inúmeros casos de corrupção. Mas, por algum motivo, os casos não viraram escândalos da magnitude do mensalão do PT. Não surgiu nenhum heroico Barbosa pra punir os responsáveis. Muitos casos ainda devem estar escondidos a sete chaves. Talvez nunca saberemos...
O recente caso da Petrobrás, também citado pelo dentista, me parece algo bastante grave, que deve sim, ser apurado e ter os pingos nos “is” colocados. Mas, se pararmos pra pensar, a maior empresa do país nunca cresceu tanto como nos últimos anos. O país nunca teve tanta visibilidade internacional, nunca foi tão respeitado como nos últimos tempos. Houve sim, um grande prejuízo aos cofres públicos, desvio de recursos, histórias mal contadas, somadas a tantas outras, federais, estaduais, regionais, municipais, de petistas, tucanos, partidos e pessoas. Confesso que tenho uma certa preguiça!
Concordo que o país não está uma maravilha, tem muita coisa errada e muita coisa pra ser mudada. Mas, quanta coisa melhorou, principalmente para os que antes não tinham nada, não tinham voz, não tinham identidade, não tinham comida. É claro que programas assistencialistas não são a solução pra todos os problemas do Brasil nem do mundo. Mas, se você vivesse na miséria extrema, com certeza perceberia melhor que o pouco pode fazer muita diferença. E dane-se se os que tinham muito têm agora um pouquinho menos (à exceção de Eike Batista). Se os que tinham medianamente alguma coisa continuam na média, ganhando muitos companheiros de classe. Acho mais significativo pensar que quem antes não tinha nada, agora tem o essencial. Esse é o primeiro passo para a dignidade, que é direito básico de qualquer ser humano. Trazendo à memória o termo usado pelo dentista, acho que o próprio conceito de CLASSE vem passando por profundas mudanças nos últimos tempos. Qual é a “NOSSA CLASSE”?  
Pra finalizar, eu ainda acredito sinceramente que existem muitas pessoas por aí – e eu me incluo nesse grupo - que não olham apenas para o próprio umbigo, mas que pensam no coletivo, no conjunto da sociedade, e essa, tem muito a agradecer ao PT e aos modelos propostos e executados pelas lideranças do partido nos últimos anos. Talvez seja hora de mudar. Talvez não. Isso, o monstro sem cabeça (ou seria inteligência coletiva?) vai resolver em outubro nas urnas. Mas devemos parar e pensar um pouco antes de sair reproduzindo discursos pré-moldados e disseminando esse ódio tão conveniente a figuras de interesses bastante obscuros.   

terça-feira, 25 de março de 2014

Devaneios incompletos de uma semana com muitas filas, senhas, semáforos e salas de espera



I
Símbolos.
Olhos, expressões, olhares, roupas, estampas, etiquetas, sapatos, óculos, brincos, colares, botões, pele, anéis, crachás, gestos, celulares, bolsas, unhas, cores, relógios, cabelo, penteado, despenteado, voz, riso, repressão, esperteza, inocência, andar, postura, bicicletas, carros, cuidado, descuido, atenção, chaves, batom, livros, máquinas, desatenção, sons, movimentos, gritos, sirenes, buzinas...
Somos um amontoado de incontáveis símbolos que contam um pouco da nossa história, do que somos, do que pensamos ser, do que pretendemos ser.

II
Ser muito bom em uma coisa ou ser mais ou menos bom em um monte de coisas? Acho que a primeira opção é mais difícil e a segunda mais divertida.
Eu me explico.
Ser um especialista em uma coisa leva tempo, dá trabalho, pode ser sofrido e desgastante. Mas também pode ser muito gratificante. Principalmente a longo prazo e principalmente se essa coisa te dá prazer. E provavelmente você será reconhecido por isso.
Por outro lado, ser medianamente bom em várias coisas é mais leve, e traz satisfação pessoal de forma mais imediata, a curto prazo. Pode ser divertido e nada monótono. É bem provável que você não se destacará por ser assim. Mas quem precisa mesmo de destaque?
Ser ? Ou ser?

III
Sobre toda e qualquer forma de arte
Eu gosto de arte.
Não só pela beleza, pelas formas, pelas cores, tamanhos, sons, texturas. Por isso também. Mas é mais que isso. Gosto de arte porque ela é uma maneira de estimular a criatividade humana, a níveis tão profundos quanto ilimitados. Ela nos ensina a ir além do óbvio. A dar novas utilidades (ou nenhuma utilidade, no sentido usual da palavra) a coisas comuns, nas quais tropeçamos todos os dias. Aliás, acho que a arte nem sempre deve ter utilidade, pra nos lembrar que ela transcende o sentido de útil. Ela nos ensina a olhar para o comum com outros olhos, os olhos de dentro. Ela nos ensina também a olhar pra dentro, a partir de algo que está fora.
Arte
faz bem.
Eleva.
Alivia o peso da vida. Trata de temas carregados de forma leve. Nos leva a diferentes lugares, sentimentos, épocas, pessoas, países, culturas.
Eu gosto de arte.
Gosto de admirar arte. De tentar fazer arte. De sentir arte. Respirar cores. Cheirar texturas. Tocar aromas. Ver sons. Ir além. Não fazer sentido. Gosto de viajar sem sair do lugar. Gosto também de sair do lugar pra sentir a arte dos diferentes ares e paisagens. Gosto da arte despretensiosa da natureza e da natureza modificada pelo homem, pretensiosamente. Ou não. Ah, a excêntrica alma do artista! Quem é o artista? Um dia me disseram que eu tinha alma de artista. Até hoje não sei bem o que isso quer dizer. Talvez eu tenha, talvez todos nós tenhamos, em algum lugar.
Gosto da ideia do inacabado, do movimento, da transformação. Da liberdade que talvez só algo como a arte seja capaz de dar.         

sexta-feira, 7 de março de 2014

Tê-los ou não tê-los



Um dia desses ouvi alguém dizer que pensava em não ter filhos, porque, se você somar o que se gasta desde o nascimento até a independência, você chegaria perto da casa dos milhões. Bom, se realmente chega aos milhões eu não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. Depende da renda, depende do padrão. A verdade é que um filho dá gastos sim, desde que está na barriga. Mas é também verdade que o mercado – a “indústria de ter filhos” - oferece uma enorme gama de coisas e mais coisas que, nem sempre são necessárias. Eu, particularmente acredito que seja possível criar um filho muito bem com menos do que se imagina, apesar de muitas vezes cair nas tentações de vitrines e propagandas fofinhas e cuti cuti que contribuem para aquela história dos milhões.

Estou no comecinho dessa jornada, ainda na fase da amamentação da minha filha de quase quatro meses. Até agora, gastamos uma quantia razoável, com coisas importantes e com coisas não tão importantes assim. Amamentar, aliás, é uma ótima maneira de economizar, sem falar das outras milhões (com certeza essa “conta” chega aos milhões) de vantagens da amamentação natural.

Ainda não coloquei no papel quanto já gastei desde a chegada da minha pequena. Nem quero colocar. Não acho justo esse cálculo. Acho que só faria sentido se pudéssemos calcular também a quantidade de sorrisos que essas pequenas criaturas nos proporcionam, o quão mais felizes eles tornam a nossa vida, o quanto eles nos tornam pessoas melhores. Ainda não achei um jeito de fazer essa conta, porque acho que essas coisas são incalculáveis. Então, prefiro seguir assim, pensando mais em sorrisos que em números.

E, como diria Vinícius, melhor não tê-los.

“Porém, que coisa/Que coisa louca/Que coisa linda/Que os filhos são!”

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Para uma menininha



Minha menininha! Adoro o jeito como você espreguiça, adoro suas caras e bocas, tão expressivas, às vezes nem parece um bebezinho tão pequenininho. Amo muito o seu sorriso! Ele aquece meu coração só de lembrar, me deixa feliz, em paz. Adoro ver você dormindo, acordando, mamando, batendo bracinhos e perninhas, com tanta energia e vontade de descobrir o mundo. Sempre com os olhinhos vivos, espreitando tudo ao seu redor. Sempre tão graciosa, sempre tão linda. Adoro ouvir sua voz doce, fazendo barulhinhos incompreensíveis e deliciosos, tentando conversar, interagir, comunicar. Adoro o toque sutil e involuntário das suas mãozinhas, fazendo carinhos sem querer.
Você está aqui agora, do meu lado, dormindo um soninho leve, tranquilo e preguiçoso, se movimentando a cada carícia que faço em você, ou a cada sonho que povoa sua soneca do fim de tarde. Te ver assim me deu vontade de parar as coisas que estava fazendo e escrever um pouco sobre você, e para você.
Mas acho que não tenho muita novidade pra contar. A vida segue devagar, agitada, contraditória e muito feliz com você, aqui, no nosso cantinho, no nosso aconchego, no nosso descobrir-se mutuamente de cada dia. Pedacinho de mim, coisinha pequena, como pode caber tanto amor, tanta ternura e tanta beleza? Menininha que cresce rápido. Outro dia mesmo era um mistério, um chute na barriga, uma imagem no ultrassom... 
E agora está aqui, tornando especialmente bonita uma tarde comum de terça-feira, cheia de sol, de luz, de cores, com o barulho do vento e um cheirinho de poesia no ar...

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mais do mesmo, de um outro lado...



Depois de uma acalorada (e calorosa) discussão com meu querido e saudoso professor Flavio Martins e Nascimento - o Flavinho, admirador das artes, da gastronomia, de uma boa prosa e de um bom vinho – resolvi escrever um pouco mais sobre os desdobramentos daquela história que começou com um rolezinho com pretensões despretensiosamente filosóficas sobre os rolezinhos, e que foi parar em outro lugar, agora sim, um pouco mais filosófico e pretensiosamente mais profundo. Bom, tudo isso pra dizer que resolvi então escrever um pouco mais do mesmo, de um outro ângulo, indo mais fundo, usando alguns trechos dessa discussão.

Estamos vivendo um momento histórico, onde movimentos despretensiosos (eita, palavrinha que insiste em aparecer!) tomam grandes proporções e agregam novos atores, autores, opiniões, teorias... um exemplo já clássico (quase um clichê) são as manifestações de junho do ano passado. O mundo está mudando rapidamente, talvez a resposta esteja nos astros, no apocalipse, ou talvez nem exista resposta. Mas a verdade é que estamos vivenciando momentos muito importantes da história com H maiúsculo. E, como estamos no meio do furacão, fica difícil teorizar muito, afirmar que “x” e que não “y”.


Bom, mas, voltando à origem da conversa, o que na verdade me inquieta não é o fato de acontecerem os rolezinhos. Esses encontros banais de adolescentes, como tantos outros por aí, e que ganharam tantos adeptos quanto holofotes nos últimos tempos, são apenas um ponto dessa história toda. Diferentes, sim, por trazerem à tona toda uma questão social, racial, econômica, estrutural. Iguais também, por não serem nem o primeiro nem o último encontro de tribos que gera barulho, teorias e especulações. Não acho que os “rolezeiros” sejam baderneiros (a palavra da moda), muito menos ideologistas da transformação e da luta contra a segregação. A ideologia dos rolezeiros, e enfim, é isso que me inquieta, me parece ser a do consumo, da aparência, da ostentação material, da superficialidade que parece não ir muito além do que mostra um perfil de facebook, ou do badalado whatsapp. A falta de um conteúdo que vá além da necessidade de comprar e exibir um nike shox (de favelados a playboys), é o que me causa certo incômodo e me faz duvidar um pouco desse movimento de transformação nos paradigmas sociais.

Enquanto muitos estão buscando seu lugar ao sol, lutando por espaço e reconhecimento através da arte e outras formas mais originais de expressão, nas mesmas ruas por onde transitam os rolezeiros, outros ainda tentam pobremente (sem trocadilhos) imitar os “segregadores” e "exploradores" (bem toscamente falando). Essa massa, que vê no consumo e ostentação (de bens importados, de preferência), no “ver e ser visto”, os maiores objetivos de sua existência. Pra mim, essa é a parte triste da história e que me parece refletir uma certa pobreza cultural, social, educacional, moral. Sem generalizações. Sem rótulos e teorias definitivas.

Mas, deixando as lamentações de lado e citando algumas palavras do Flavinho, “nesses eventos coletivos, a maioria das pessoas age como manada, onde ninguém sabe exatamente o que está fazendo ou querendo. O que por um lado é triste, segue sendo a lógica evolutiva do homem. Nós, seres humanos, convivemos em estágios muito diferentes. Penso que o caminho para a transformação que esperamos e queremos é cada vez mais pessoal, e por isso mesmo, muito lento, seletivo, gradual”.

Essa é a parte mais profunda e otimista da história.

Vai ver é exatamente aí que “a mágica acontece”. Vai ver, existe uma lógica em tudo isso que a nossa razão e a vã filosofia desconhecem.Vai ver, vamos ver. Ou não...



Obs.: Flavinho, valeu pela prosa e desculpe-me se plagiei algumas de suas falas sem os devidos créditos. Fica um ensaio para aquela ideia de escrevermos um texto a quatro mãos.