Depois de uma
acalorada (e calorosa) discussão com meu querido e saudoso professor Flavio
Martins e Nascimento - o Flavinho, admirador das artes, da gastronomia, de uma
boa prosa e de um bom vinho – resolvi escrever um pouco mais sobre os
desdobramentos daquela história que começou com um rolezinho com pretensões
despretensiosamente filosóficas sobre os rolezinhos, e que foi parar em outro
lugar, agora sim, um pouco mais filosófico e pretensiosamente mais profundo. Bom,
tudo isso pra dizer que resolvi então escrever um pouco mais do mesmo, de um
outro ângulo, indo mais fundo, usando alguns trechos dessa discussão.
Estamos vivendo
um momento histórico, onde movimentos despretensiosos (eita, palavrinha que
insiste em aparecer!) tomam grandes proporções e agregam novos atores, autores,
opiniões, teorias... um exemplo já clássico (quase um clichê) são as
manifestações de junho do ano passado. O mundo está mudando rapidamente, talvez
a resposta esteja nos astros, no apocalipse, ou talvez nem exista resposta. Mas
a verdade é que estamos vivenciando momentos muito importantes da história com
H maiúsculo. E, como estamos no meio do furacão, fica difícil teorizar muito,
afirmar que “x” e que não “y”.
Bom, mas,
voltando à origem da conversa, o que na verdade me inquieta não é o fato de
acontecerem os rolezinhos. Esses encontros banais de adolescentes, como tantos
outros por aí, e que ganharam tantos adeptos quanto holofotes nos últimos
tempos, são apenas um ponto dessa história toda. Diferentes, sim, por trazerem
à tona toda uma questão social, racial, econômica, estrutural. Iguais também,
por não serem nem o primeiro nem o último encontro de tribos que gera barulho,
teorias e especulações. Não acho que os “rolezeiros” sejam baderneiros (a
palavra da moda), muito menos ideologistas da transformação e da luta contra a
segregação. A ideologia dos rolezeiros, e enfim, é isso que me inquieta, me
parece ser a do consumo, da aparência, da ostentação material, da
superficialidade que parece não ir muito além do que mostra um perfil de
facebook, ou do badalado whatsapp. A falta de um conteúdo que vá além da
necessidade de comprar e exibir um nike shox (de favelados a playboys), é o que
me causa certo incômodo e me faz duvidar um pouco desse movimento de
transformação nos paradigmas sociais.
Enquanto muitos
estão buscando seu lugar ao sol, lutando por espaço e reconhecimento através da
arte e outras formas mais originais de expressão, nas mesmas ruas por onde
transitam os rolezeiros, outros ainda tentam pobremente (sem trocadilhos)
imitar os “segregadores” e "exploradores" (bem toscamente falando).
Essa massa, que vê no consumo e ostentação (de bens importados, de preferência),
no “ver e ser visto”, os maiores objetivos de sua existência. Pra mim, essa é a
parte triste da história e que me parece refletir uma certa pobreza cultural,
social, educacional, moral. Sem generalizações. Sem rótulos e teorias
definitivas.
Mas, deixando as
lamentações de lado e citando algumas palavras do Flavinho, “nesses eventos
coletivos, a maioria das pessoas age como manada, onde ninguém sabe exatamente
o que está fazendo ou querendo. O que por um lado é triste, segue sendo a
lógica evolutiva do homem. Nós, seres humanos, convivemos em estágios muito diferentes.
Penso que o caminho para a transformação que esperamos e queremos é cada vez
mais pessoal, e por isso mesmo, muito lento, seletivo, gradual”.
Essa é a parte
mais profunda e otimista da história.
Vai ver é
exatamente aí que “a mágica acontece”. Vai ver, existe uma lógica em tudo isso
que a nossa razão e a vã filosofia desconhecem.Vai ver, vamos
ver. Ou não...
Obs.: Flavinho, valeu pela prosa e desculpe-me
se plagiei algumas de suas falas sem os devidos créditos. Fica um ensaio para
aquela ideia de escrevermos um texto a quatro mãos.
Obrigado pela gentileza, Bia!
ResponderExcluirPS: A frase que eu citei erroneamente é de Gottfried Leibnitz!